Eu juro que eu tento não ser assim. Eu me viro, dou voltas, sacolejo, remexo, mudo, invento, retrocedo, avanço, vou, volto, desdobro, encontro, reencontro, peço, grito, digo, subo e desço ? várias e ininterruptas vezes. Suaves e bruscas. Eu tento, juro! No fim das contas fico quase igual: uma menina insuportável e dramaticamente real, igual, nada legal. As pessoas vão até um certo ponto, depois começam a sentir-se ligeiramente incomodadas, deslocadas e então elas fogem! Fogem... Somem como uma desculpa esfarrapada. Sou um desconforto! Para mim mesma, para os outros, para a humanidade! Se elas voltam depois? Algumas voltam, mas de um jeito estranho: nunca mais tocam. É, elas pensam que é contagioso. Eu conheci uma moça loira, bem loira (bem loira), baixa, não tão baixa (1m60cm), magrinha (50 kg, sem atributo algum), falante e engraçadinha (daquelas que falam, falam e, em que pese ninguém escutar, agradam muito), com pensamentos fáceis, concretos, enérgicos. O que mais? Ah sim, ela não discutia e tinha na cozinha o âmago do prazer existencial: doces, salgados, gelados, um encanto! E ao final? Lavava toda a louça com prazer, claro. O nome? Fulana Cristina Leveza! Era considerada uma companhia para ouvir: falava coisas agradáveis sem sequer exigir resposta. E se quisessem apenas o silêncio? Fulaninha vinha com docinhos, bolinhos e patês ? para embalar seus pensamentos, em total silêncio. Casou, teve filhos, todos leves e bonitinhos: Pedrinho Leve, Mariazinha Leve. Que família de peso; ou melhor: que família levemente feliz! Eu adorei ela, a-d-o-r-e-i, doutora.
- Menina Má, sente-se melhor após me falar isso tudo?
- Sim, doutora, muito melhor.
- Achas mesmo que é essa menina que gostarias de ser?
Trimmmmmm.
Toca o telefone e Menina Má, olhando rapidamente o relógio e sabendo que, de fato, o seu tempo acabou, despede-se da doutora com um aperto de mão. Virando a esquina a rotina se apodera: Menina Má não se transforma em açúcar. Em casa, sem a intensidade dos pensamentos, sua vida a aguarda: sem tortas ou respostas, só o peso da continuidade dos dias.